Historias do Magrao para quem estava com saudades

A glamurosa vida de consultor.

(É… colegas consultores. Eles vêem as pinga que tomamos, mas não vêem os tombos que levamos)

Minha última viagem para projeto internacional foi à Paris.
Falando assim o que todo mundo pensa… Que legal! É um privilegiado! Etc.

Avisaram-me três dias antes. Aí no dia seguinte, cancelaram. Aí no outro dia confirmaram novamente. Lá fui eu. Em cima da hora.

Quando comuniquei às pessoas que iria para lá, ouvi diversos comentários:
– Nossa! Que vida boa essa que vocês levam!- Vai levar a esposa?

Não adiantava responder:

– Mas vou a trabalho.
E escutava:
– É, mas é em Paris!
Até a esposa dizia frases com cara de brava:
– Você vai para Paris e eu não poderei ir com você, é muita sacanagem!
Que culpa tenho eu?

Aí começa a saga.
Lembram em fevereiro? Falou se muito nos noticiários. Um frio incomum na Europa.
Muita neve na Espanha, Itália, França. Em regiões onde normalmente não neva ou fazia muito tempo não nevava como Roma, Paris nevou bastante.
Pois é… Eu tava lá… Em Paris, bem nesses dias, os mais frios em décadas.
Cheguei num dia já muito frio.
Pensei: – OK não é comum e a tendência agora deve ser esquentar…
Triste ilusão! Mais Frio!
Aí no primeiro dia tive a fantástica notícia:
Nos próximos três dias você terá reuniões com o pessoal daqui e um pessoal da Austrália também vai participar e por isso as reuniões começarão as 6:00 hs da manhã e é bom você chegar às 5:45hs no escritório.
Resultado: Nos três dias seguintes enfrentei o frio das 5 da matina, sem café da manhã do hotel (que começava a ser servido às 6hs) para participar dessas reuniões. Fora isso para poder entrar no prédio da empresa tinha que chamar o porteiro do prédio e ficar esperando na calçada até que ele, assustado ao ver um cara querendo entrar para trabalhar a essa hora, ir abrir a porta. Se demorasse muito eu viraria um sorvete. Ou seja, até então Paris estava terrível pra mim.

Como todo brasileiro que não desiste nunca, faço aquele esforço mental e penso:

Ok, no final de semana vai melhorar…
Na sexta-feira deu uma melhoradinha. Beleza! Agora vai…
Sábado, acordei às 9 horas da manhã, normalmente estaria começando a esquentar lá pelas 10hs. Como gosto passear caminhando pelas cidades européias que são organizadas e aconchegantes, planejo:
Vou descer do metrô numa estação perto de vários pontos interessantes e aí caminhando e passeando decido aonde ir. Dois colegas compraram a idéia e foram comigo. Resultado: Passei o maior frio da minha vida.
Não sei como, cheguei ao Louvre. Eu o via 200 metros a minha frente e ainda assim duvidava que conseguisse chegar lá. Olhei para um laguinho que tem no caminho e ele estava congelado. Olhava uns malucos correndo pelo parque só de agasalho com aquele vento cortante e ficava imaginando: como eles não passam frio? Será que vão me socorrer se eu cair por aqui?
Cheguei ao museu e levei uns 15 minutos para me recuperar. O rosto formigava, o nariz corria e não tocava as orelhas com medo de que elas quebrassem.
OK, ok, a visita ao museu foi dez. Comi numa lanchonete lá dentro mesmo.
Lá pelas 2 da tarde subiu a temperatura lá fora, pelo menos é era o que o Iphone do meu colega informava, sendo assim os tolinhos brasileiros pensam:
– Subiu bastante, agora dá para andar lá fora. Deu, foi sofrido, friorento, mas deu.
Margens do Sena, torre Eiffel, chocolate quente, compra de luvas e gorros para aguentar o tranco etc.
Quando umas duas horas depois começou a esfriar e ficar insuportável novamente fomos a Galeria Lafayette. Chegando lá percebi que só mulheres haviam recomendado conhecer o local e descobri o motivo:
É o paraíso para as mulheres e inferno para os homens. Vários andares, milhões de coisas que não interessam ao sexo masculino e que a massacrante maioria não teria dinheiro para comprar de qualquer modo. Então prá que ficar lá dentro com um monte de gente se esbarrando? Não faço idéia, mas por algum motivo as mulheres adoram. Ficam hipnotizadas, qualquer argumento masculino passa longe de ser notado.
Juro que procurei uma seção de coisas masculinas e descobri, fica num cantinho mirradinho num dos andares.
Voltei para o hotel e apesar dos pesares estava começando a gostar de ter ido a Paris. Sinto um incomodo nos dentes. Na manhã seguinte vou tomar café. Não consigo mastigar de um lado. Penso:
– Dor de dente? Assim do nada? E agora?
Mesmo assim fui dar um rolê na Champs Elysees e almoçar por lá. É legal.
Dia seguinte… mais dor. Resisti durante toda a semana à base de doses cavalares de aspirina.
O frio continua. Continua a saga de tentar se equilibrar nas calçadas cheias de gelo, de comer perto do hotel para não ter que passar frio, de aguentar o mal humor dos taxistas.
Thanks God, até que enfim é sexta-feira. Volto para a terrinha.

Chego no sábado de carnaval, sinto o calor, humm! Delícia! O dente logo parou de doer.
A glamorosa vida de consultor tinha se resumido a um final de semana gelado na França.
De qualquer modo não posso reclamar, é o jeito de trabalhar que escolhi e por enquanto não troco por outro. Afinal Paris é Paris.
Depois da semana do carnaval tive que voltar para lá novamente, mas essa história fica para um próximo “post”.

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